Porque falar de ciência e fé? O que é fé? O que é ciência? Quem sou eu para dizer-vos! Mas essas duas palavras, quando expostas na mesma frase ou no mesmo texto, frequentemente causam certa tensão ao leitor. Se este for demasiadamente adepto à ciência, provavelmente dirá: "Mais um texto de bobagens sobre fé!". Já o leitor, cuja fé é inabalável diria: "Mais um texto de cientistas que acham que podem explicar tudo!". Você pode ter se identificado com alguma dessas afirmações, mas se existe em você uma vontade de pensar a respeito, sua mente está no estado perfeito para debater idéias. Assim estamos, eu e você, na mesma "sintonia", e convido-o a pensarmos um pouco, no intúito de descobrimos algumas conclusões interessantes.
- O que você sente quando diz ter fé em algo?
Possivelmente uma certeza; a ausência da dúvida; uma convicção que é a própria razão de ser, que não necessita de fundamentos para existir. Retire essa certeza e o sentimento em relação àquilo que você sentiu quando disse ter fé muda. Reponha a certeza de volta e aquele sentimento volta a ser o mesmo. Podemos, então, dizer que a fé emerge da certeza.
- A fé, cuja certeza contém qualquer fundamento deixa de ser fé?
Basta fazermos o teste novamente: retire esse fundamento. Se o seu sentimento sofrer modificações, então o que você sentia antes não era fé, uma vez que vimos anteriormente que a convicção que alicerça a fé não necessita de fundamentos; Mas se o seu sentimento permaneceu inalterado, sua fé permanece a mesma e, assim, tanto faz retirar ou repor aquele fundamento, sua fé não se modificará por isso. Logo uma fé fundamentada não deixa de ser fé.
- Quando não há fundamentos para a sua fé, você procura buscá-los?
O acomodado poderia dizer que não, deixaria "para lá"; poderia contentar-se com a dúvida, aguardar a resposta aparecer algum dia de maneira pouco trabalhosa, sem o esforço da pesquisa ou do pensamento. Se você já leu até aqui (desde já eu o agradeço por isso... rsrs), suponho que esse não seja o seu caso. Você possivelmente gostaria de conhecer mais sobre aquilo em que se tem fé, seja através da pesquisa ou do pensamento; entender pelo menos parte do objeto de sua fé.
O leitor poderia então me questionar: "Ora, mas se você atribui tanta importância à busca de fundamentos para sua fé, então é porque na verdade você deixou de ter fé!". Eu vejo por outro ângulo: se é importante para você buscar fundamentos para sua fé, é porque sua fé não é doentia. Significa que a sua fé não é aquela que faz a verdade reduzir-se a um "mundinho" criado por você; que sua fé não é fanática; que você tem consciência de não ter capacidade de deter conhecimento absoluto sobre todas as verdades. Mas você, ainda sim, possui fé!
Os mais curiosos são ainda impulsionados por uma sede que não se contenta com explicações superficiais ou ilógicas. Quando se busca fundamentos para a fé, a dúvida aflora em nossas mentes, inundando-nos com o poder da criatividade. A criatividade nos faz criar hipóteses e por conseguinte incita-nos a desenvolver métodos e procedimentos para organizar os fatos e as idéias que giram ao redor da dúvida, permitindo-nos tomar conclusões. Talvez você tenha pensado: "Aí já é exagero, André!", mas isso nada mais é do que ciência. Você pode até não ser um cientista, mas fato é que a dúvida é quem desafia os cientistas a mover-se, percorrer distâncias, observar os fatos, investigar as causas, e desenvolver métodos e procedimentos. A ciência emerge da dúvida.(1)
Todavia, pode acontecer de você se decepcionar fortemente ao descobrir que aquilo que era objeto de sua fé não pode ser verdade.
- O que você faz quando percebe que aquilo que motiva sua fé não pode ser verdade?
Um exemplo disso aconteceu quando por muito tempo acreditou-se que o planeta Terra era o centro do sistema solar, orbitado pelo sol e todos os outros planetas. O geocentrismo era uma certeza quase incontestável até por muitos cientistas da época. Contestar o geocentrismo até o século XVI era considerado blasfêmia e você poderia ser taxado como louco, herege ou até morrer por isso. Contudo observava-se que o Sol descreve um círculo lentamente pelo curso de um ano e que os planetas possuem movimentos similares, mas algumas vezes eles movem-se na direção oposta, em um movimento retrógrado, fato que indicava a incompletude ou a falta de verdade na teoria do geocentrismo. Até que Nicolau Copérnico apresentou um modelo matemático preditivo completo de um sistema heliocêntrico, que mais tarde foi elaborado e expandido por Johannes Kepler.(2)
Muitas cabeças foram separadas de seus corpos até que o heliocentrismo passasse a ser aceito pela sociedade. Essas reações ocorrem porque não é fácil mudarmos nossas crenças, pois elas fazem parte da nossa ideologia; estão arraigadas no âmago do nosso ser; são raízes da nossa fé. A sociedade sempre rejeita a mudança. Além disso, o orgulho e a vaidade da época, não cediam espaço para que essa verdade fosse divulgada. A sociedade, principalmente os nobres e a igreja, não possuia a mente aberta para debater idéias [2], e isso ocorre até hoje.
As idéias acima nos mostram uma relação íntima entre ciência e fé e a mútua interferência entre elas. Uma ideologia saudável faz as duas caminharem juntas e é motivada por um misto de certeza e dúvida. Quando a ciência é eliminada dessa relação, você estará colocando a certeza acima de tudo e acontece o que chamamos de "fé cega" ou "fé ingênua"; a fé doentia que gera o fanatismo; a fé que reduz o universo a uma única possibilidade. Aqueles que não podem suportar a dor de uma verdade ou aqueles, cuja mente está envenenada com alto teor de orgulho e vaidade, fecham-se em seus pequenos mundos e tornam-se mais suscetíveis a desenvolver esses sintomas de fé. Já quando a fé é eliminada daquela relação, você estará colocando um ponto de interrogação em todas as certezas; limitar-se-á às possibilidades materiais, posicionando o homem acima da natureza, que, em sua opinião, não poderia ser capaz de produzir efeitos desconhecidos ao homem; será cético a todas as coisas e assumirá que não se pode obter alguma certeza absoluta a respeito da verdade, o que implica numa condição intelectual de questionamento permanente e na inadmissão da existência de fenômenos metafísicos, religiosos e dogmas (o que já constitui uma contradição do próprio ceticismo, uma vez que a inadimissão é uma certeza absoluta).(3)
Portanto, caro leitor, é perfeitamente racional pensar que enquanto a ciência livra a fé da ingenuidade, a fé ajuda a ciência a não cair num puro materialismo, posicionando equivocadamente o homem acima da natureza. A fé precisa da luz da ciência para não ser cega e não se tornar fanática e doentia; a ciência precisa da fé para não colocar as suas descobertas a serviço da destruição humana.(4)
Um grande abraço a todos.
(1) [Os segredos do Pai-Nosso, pag 21 - A.Cury]

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